Os Residentes

maio 1, 2011

 

Como jogar na lixeira verde toda a discussão atual sobre o cinema brasileiro de agora (e não novíssimo, mas simplesmente diagora) ser pautado por uma mistura quase transloucada de documentário e ficção? E isso é positivo? A ficção, a mímesis, a boa mímesis, é a que imita, absorve e transforma  o tal  “real” com maestria; mas quem diria com firmeza (ou ainda, com pragmatismo alemão) o que é “real”? O que é utopia? O que é realidade? Política? Arte? Virtualidade? Virtuosismo? De que diabos estão falando todos vocês ou eu mesma? É possível que eu escreva com paixão ou que a atriz de um filme chore com ardor sem evocar nela (ou em mim) lembranças da própria vida pessoal? A única coisa real, e que pode evocar uma virtualidade (que não é o oposto de realidade, mas sim manifestação da essência da mesma) é o fator pessoal? Como diria Philip Roth: o fator humano. De qualquer forma, ADEUS EMILIE BRÖNTE. Na época dela só era possível se afirmar no anonimato, hoje, é simplesmente impossível. As eremitas irmãs escritoras escondiam não só seus nomes, mas também seu sexo, para poderem criar em paz. Hoje, seja na literatura, seja no cinema (ou, seria melhor dizer, no “audiovisual”) não há como se afirmar sem o tal clima “autoral”, “documental”, “biográfico” (que continua palavrão, mas reinante – e rançoso). Tudo para dizer que acho Os Residentes um filme excelente – por assumir e brincar com isso – e vou dissecá-lo de leve, na tentativa (quase criminosa) de provar seu valor:

1. LIBIDO
O esquema de esquetes divididas por títulos de capítulos e os intervalos entre eles marcados por peças de roupa que vão mudando de forma (partes do corpo às quais se destinam) e cor (penduradas em cabides e solitárias no meio da tela branca) são o que há de mais bruto naquilo que se convencionou chamar de representação. Afinal, primeiro de tudo (antes da literatura, dos capítulos e do cinema) somos os únicos animais que se vestem – E já existiam as cores. Vivemos em um mundo de representações (sim, estamos todos imersos em clichês) e acredito que não é por acaso que na cena da DR a personagem (suprema), em meio a uma discussão sobre o comportamento amoroso, de unhas vermelhas, vestindo uma meia calça furada, um blusão azul-marinho com motivos de marinheiro e um laço também rubro no pescoço, profere: “Você acha que sou uma mentira?” – Ou talvez a palavra usada seja farsa, ou representação? – E qual o valor dessa palavra frente a sua meia-calça preta transparente, deixando a roupa de baixo à mostra (em um fetichismo vestuário quase cômico), percorrida do dedão do pé à cintura por uma câmera que a deseja? Onde está a verdade do (no) cinema? Não estaria na representação como exorcismo da libido?

2. A ESTÉTICA ESTICA A ÉTICA
 Admiro o pragmatismo alemão, mas abomino um ditado (na verdade, uma Redensart) de mesma nacionalidade que diz: “Grün und Blau schmückt die Sau”, o que quer dizer “de verde e azul se enfeita a vaca”. A Redensart  é usada para se referir a alguém que tem mau gosto, sugerindo que misturar verde e azul denota falta de elegância. Ora, alemães, acho que verde com azul cai muito bem, assim como o amarelo das grades que combina com a camiseta  hering style  da atriz no início de Os Residentes. Mas é quase óbvio que, principalmente durante a Berlinalle (Festival de Cinema de Berlim, onde o filme de Machado foi exibido), uma parte da crítica questionou como um diretor tem coragem de fazer esse-tipo-de-coisa-hoje-em-dia. “O filme é até legal, mas por que tudo isso nowadays?”, era a questão de um dos críticos alemães, do tipo que comparam Machado a Godard.  Eu me pergunto o significado de hoje em dia. Será que o cinema (e junto com ele nosso estilo, nossa capacidade de representação) evoluiu a ponto de podermos fazer essas restrições – limitações?

Como já comentou o Sérgio Alpendre, Os Residentes parece dialogar com A Terceira Geração de Rainer Werner Fassbinder. O filme alemão é também dividido em esquetes, só que, ao invés de por capítulos marcados com roupas em cabides, é dividido por capítulos marcados por citações de portas de banheiro público de uma famosa estação de trem alemã. Fassbinder também exorcizava o desejo (libido) pela representação, e ia fundo no lado true (“verdade”) da performance. Em A Terceira Geração, as citações (reais) de portas de banheiro da Estação Bahnhoff  evocam  essas  truezas do íntimo pessoal que só se revelam na privacidade dos banheiros, mas que, depois, quando os usuários fecham as portas, tornam-se restos de fatores humanos anônimos e públicos; viram  a legítima “estética esticando a ética”. No filme de Machado as roupas (objetos pessoais) marcam não só os interlúdios, mas também são amarradas ao corpo da personagem de Dullius em outra cena (que precede a pichação da frase “a estética estica a ética”) numa dança amarelo-vermelho-verde-azul celeste onde as cores são  mais vivas que humanas, mais estéticas que orgânicas. Ali, as roupas destituídas de sua função primária (em cores primárias) se descaracterizam (anonimato utilitário) assumindo o papel de meras (?) peças de representação.  Mesmo que implícita, a relação entre o filme de Fassbinder e Os Residentes é óbvia: além de sermos os únicos animais que se vestem (de nossas próprias verdades – e cores – primárias), também somos os únicos que nos escondemos para cumprir nossas necessidades fisiológicas (defecar e escrever “verdades” nas paredes).

A Terceira Geração é um filme sobre uma geração que quer continuar fazendo guerrilha sem saber direito pelo que luta, os herdeiros perdidos do grupo Baader Meinhoff. Nossa geração, no Brasil, de certa forma, segue avacalhando por não “poder” com eles (os “grandes”), e isso serve para o cinema. Em Os Residentes, no entanto, a atriz não escreve na parte de dentro da porta de um banheiro público (como os alemães em A Terceira Geração), mas na parte de fora de uma porta de armário (privado). Ela estica a privacidade, e se veste de acordo para fazê-lo. O mesmo se depreende da imagem dos sacos de lixo pendurados em galhos de árvores: o íntimo se torna público e, mais do que isso, festivo e colorido.

3. O LIXO E O LIMPO

O lixo é elemento-chave do filme, o que fica evidente na cena em que vários sacos de lixo são colocados no meio de uma avenida a ponto de interromper o trânsito e parece questionar: que tipo de organização é essa na qual vivemos? É pautada pelo tempo ou pelo lixo? Por que as pessoas não saem todas dos carros e põem a mão na massa, ou melhor, no lixo, ao invés de buzinar? Quando a residência dos residentes é demolida (detritos) há em uma das paredes uma bicicleta de “rodas quadradas” pintada: que desabe o mundo, que se espalhe o lixo, ninguém entende mesmo, é preciso sempre “enquadrar” a maldita roda, ou o maldito lixo, sempre no lugar certo (para que ninguém buzine), ainda que isso implique distorcer tudo, já que o importante é manter a ordem. É o novo fascismo: lixo organizado é melhor que beleza orgânica. Exatamente nesse ponto, Machado se recusa a manter a ordem: não “enquadra” seu discurso, enquadra a roda (quadrada) da bicicleta na parede e retoma a ideia de greve dos artistas (os únicos capazes de subverter com maetria a ordem – ou as formas). Mais uma vez, a ética é esticada pela estética.

Fala-se muito na cena da DR, mas as duas melhores cenas são a da loura recebendo esguichadas de tinta vermelha na parede e a da mesma loura escutando um homem defecando e lendo trechos de livro enquanto está atada em uma banheira. Destaque também para a cena dos pelos pubianos que são cortados (no filme) não em função da higiene, mas em função (mais uma vez) da representação, da estética que estica ética: eles viram um bigode para a atriz principal algumas cenas depois.

OS 4. ELEMENTOS

Há uma frase de Barthes: “As palavras jamais são loucas, a sintaxe é que é.” Não sou partidária de uma “semântica fílmica”, da linha semiótica que aplica Saussure ao cinema, mas uso a frase apenas para ilustrar o que penso sobre as imagens disponíveis, de forma geral, porque palavra, no sentido bíblico – e sagrado –  é também comunicação (como as imagens). Afinal, já estamos mesmo falando de imagem com palavras e, como diria Frank Zappa “falar de música com palavras é como dançar sobre arquitetura”. Penso então que o mesmo deveria valer para a crítica de cinema, mas, é como no caso da tradução: seria melhor não fazer, mas como é impossível deixar de fazer, então que se faça o melhor. De qualquer forma, o que quero dizer quanto às imagens é: os elementos estão todos à disposição, tanto as cores primárias quanto os sacos de lixo ou a textura da terra, o interessante é como isso se engendra; são os personagens se afundando na terra e compondo uma escultura humana, ou a mulher (homem?) penteando um cabelo crespo e chorando de dor. Afinal, dói ser humano e dói ser mulher (só posso falar por mim). Dói ter de escolher a roupa certa para se afundar na terra e ter o cabelo “certo” para discutir o relacionamento – ou o listrado certo e o All Star adequado para compor uma cena de cinema. Apesar disso, as roupas (farsa) e os objetos (matéria) são elementos disponíveis que se desfazem quando a sensação do indisponível (e do não pronunciável ou não entendível) transcende o real na sua própria transfiguração: uma transfiguração que não se opera na matéria ou na mentira, mas nas zonas autônomas do cérebro e da alma.

Os Residentes é um filme sobre os únicos quatro elementos ao mesmo tempo místicos e reais: água, terra, ar e fogo. Um monumento a cores (verde-terra no desespero final, amarelo-sol no início morno) em homenagem ao preto e branco – básico e belo. Ainda que imerso no caos e no lixo urbano (ou em detritos de uma casa que desaba), o homem tem sede de (e busca) beleza. Não uma beleza que se opõe ao feio, mas uma beleza que cria dimensões – seja de monstros, seja de anjos, seja daqueles que não sabemos ao certo, mas nos intrigam. Os Residentes é uma negação do dualismo pelo quádruplo: quatro residentes interagindo com o não alinhamento de uma criança e uma artista intrusa – figuras da ingenuidade mais pura do que se combinou chamar de belo. Há um casal que é o fogo (a paixão) e o ar (alívio) do filme. Há a terra em matéria e escombros; há tijolos e cor (calor) e pó de tijolos por toda a obra. E há o elemento oculto (que é ao mesmo tempo a completude de todos os outros): a água – o fluido – é a(o) única(o) que falta. Mas não poderia ser de outra forma, pois trata-se, definitivamente, de um filme sobre a sede, de uma banheira sem água.